A dor e o desapego
Os budistas dizem: “toda dor vem do desejo”. Tendo eu voltado a treinar Tai Chi me voltam à mente vários princípios de doutrinas zen, e esse é um bem interessante, mas primeiro vem o conceito de “DOR”.
Dor e desconforto são basicamente uma coisa só, o que muda é a intensidade. Um desconforto muito grande é uma dor, assim como uma dor que vai passando se torna apenas um desconforto. Desconforto ou dor são ferramentas, as luzes vermelhas que ascendem pra dizer que algo está errado e que se a gente não resolver logo vai dar em merda. Pegar numa panela quente dói, porque se você não tirar a mão vai se queimar e vai ficar na merda.
O problema da dor é que para evitar esses “danos” nós corremos e evitamos todo tipo de dor logo de cara, afinal pra que arriscar? Mas não se faz exercícios sem alongamento (dor), não se faz uma tatuagem, ou várias, sem sentir as agulhadas (muita dor), não se ganha dinheiro sem trabalhar (dor)… crescer dói! Tudo o que vale a pena traz uma dose de dor. E é aí que entra a beleza do ensinamento budista!
O budismo defende que a dor é parte integrante da vida (assim como Drummond que disse “A dor é inevitável, o sofrimento é opcional”), e o que separa “dor” de “sofrimento” é esse conceito de “desejo”. Usando as palavras de Renato Russo “toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”.
Trazendo esse princípio para a nossa realidade e trocando a palavra “desejo” podemos entender tudo melhor usando o termo “apego”. A dor é o momento em que largamos e sentimos que perdemos algo. A falta que aquela coisa nos faz é o que transforma nosso desconforto em dor e nos assusta tanto. É assustador quando perdemos o nosso conforto, nossa segurança ou mesmo nossas coisas. A falta que algo nos faz nos coloca na busca por algo que complete o vazio deixado, e sabemos que o vazio é desconhecido e por isso assusta tanto.
A receita budista para lidar com a vida é o desapego: não se agarrar às coisas e aos sentimentos, sabendo que eles são temporários e que podem nos impedir de conseguir coisas melhores e maiores. Devemos então abrir mão… deixar que se vão… Parece fácil? Boa sorte! E quem conseguir, por favor me diga como!