Ciclo de vida e Imagem no Marketing Pessoal
As epifanias (insights ou percepções súbitas) ocorrem de várias formas e geralmente nos mostram coisas que deveriam ser óbvias, mas que se escondem de nossa percepção. Este é o meu relato pessoal como professor e pesquisador, atingido por uma epifania muito particular.
Pois bem, estudando Marketing falamos sobre ciclo de vida dos produtos e das marcas e entendemos que esses ciclos mimetizam o que se passa com seres vivos (somos concebidos, nascemos, crescemos, amadurecemos, envelhecemos e eventualmente morremos) pela perspectiva do mercado (planejamento, lançamento, expansão, equilíbrio, declínio e extinção). Metáforas que trazemos da vida para a mercadologia. Massa!
A epifania que me ocorreu foi perceber que esse ciclo de “vida” se aplicaria também para seres “vivos”. Por mais que possa parecer óbvio, para mim não era!
Aconteceu o seguinte: ao completar 30 anos fui impactado com as exigências que meu atual cargo trazia sobre aminha imagem. Por motivos funcionais de conforto sempre preferi calças folgadas e de muitos bolsos. Por motivos de praticidade sempre preferi usar tênis ou sandálias de couro. E por motivos de estilo pessoal sempre preferi usar camisetas de malha com estampas descontraídas. Aparentemente essa indumentária não era condizente com as atribuições de uma vice-direção acadêmica de faculdade.
Uma sexta-feira à noite, ao chegar ao local de trabalho usando meus trajes costumeiros recebi a informação de que precisaria presidir uma colação de grau. Não que fosse uma ocasião tão formal, mas em respeito aos alunos eu não quis lhes outorgar o grau de graduado com minhas tatuagens expostas, uma camiseta debochada e uma calça cargo no maior estilo skatista. Resultado: tive de voltar em casa e trocar a camiseta por uma camisa de botão
(modelo slim, manga longa dobrada aos cotovelos, branca com listras verticais azuis), uma calça jeans (corte reto, lavagem tradicional) e sapatos formais (couro com bico quadrado). De “mim” mesmo só restou a corrente presa à calça (que eu não tiro nem a pau) e uma pulseira de couro azul (inclusive combinando com a camisa).
Traje retificado, cerimônia realizada, reflexão iniciada.
Essa situação ocorreu na véspera do meu aniversário de 30 anos, o que já deixa qualquer pessoa reflexiva sobre a vida e suas mudanças de fase, mas me fez absorver a tal epifania: o público consumidor da minha “marca” (meus colegas de trabalho e amigos) passava a enxergá-la em outro estágio do ciclo de vida… não mais na expansão, mas sim no equilíbrio (me viam como adulto).
Toda a crise gerada foi resultado do choque entre a percepção do público sobre a marca (a relação criada com os serviços oferecidos, digamos assim) e a representação visual dessa marca (a forma como ela atinge os sentidos do público). Como resultado se fez necessário um reposicionamento de marca, ou melhor, foi necessário um redesign (uma repaginada) na construção visual da marca para que se adequasse ao posicionamento que já havia sido conquistado na mente das pessoas.
O mais interessante é que tudo o que o público esperava era que a aparência da marca se tornasse condizente com o comportamento da marca, e isso nasce da relação entre pessoas. Quando criamos uma relação de respeito e confiança com determinada marca esperamos que ela seja confiável e respeitável inclusive no campo visual.
Daí surge o marketing pessoal, a compreensão e o tratamento da imagem do individuo pelos princípios que aplicamos para gerir a imagem das corporações. É normal esperar que uma pessoa que “faz coisas de adulto” se vista “como um adulto” para que eu o trate “como umadulto” e confie nele “como um adulto” (assim ele será um adulto para mim).
É muito mais fácil nos relacionarmos com uma marca (pessoal ou institucional) quando existe uma coerência entre aparência, comportamento e seu momento no ciclo de vida, mesmo que essa coerência não seja justa, honesta ou mesmo elegante. Mas afinal, estamos lidando com pessoas,quem disse que seria uma luta justa?
A lição que me ficou de tudo isso é que pode haver (e muitas vezes há) uma diferença significativa entre a aparência de uma marca e sua essência, e quando lidamos com seres humanos essa discrepância envolve o respeito à diferença e à individualidade (que não devem nunca ser ameaçados). Quando entramos no mundo profissional, entretanto, precisamos construir nossa imagem de acordo com a forma que queremos ser percebidos. Essa imagem profissional não deve nunca ferir nossos princípios e crenças, mas deve projetar nas roupas, posturas e comportamentos o reflexo de todo o nosso potencial, que só será alcançado com a abertura que nos será dada pelas pessoas que confiarem em nós (imagem gera confiança que gera espaço que gera nova imagem que gera outro espaço e assim sucessiva e ciclicamente).
Eu gosto de ser eu e gosto de entender o que a moda faz por/para/contra nós!


